4ª Peregrinação: 20,21 e 22/4/06

Campo Mourão, Peabiru e Engenheiro Beltrão no Caminho da Terra Sem Mal

O Caminho da Terra Sem Mal não é uma busca apenas dos nossos ancestrais bíblicos ou guaranis. Agora, é também uma proposta real para os municípios da COMCAM.

Percorrendo, no trajeto da região entre Campo Mourão, Peabiru e Engenheiro Beltrão, um pequeníssimo, mas significativo trecho da trilha de aproximadamente 4.000 anos e 3.000 km de extensão, que vai de um Oceano a outro por terra, os peregrinos literalmente buscaram a Terra Sem Mal.

E, pelo visto, encontraram.

Quem foi, no andar manso e desafiador, refletiu, exauriu-se, conheceu alguns de seus limites... Mas, conheceu, sobretudo o outro – o outro guarani, indígena, que forçou-se a ouvir, pelas vozes dos guias. Aprendeu a respeitar a memória apagada e morta deste chão, calado, mas implacável nas cobranças pela tinta vermelha das paixões e injustiças, as quais suas entranhas absorveu, nunca impunemente...

Viveu um pedacinho deste céu guarani.

No dia 20, o peregrino pôde conhecer um pouco da história do Caminho de Peabiru na região, pela apresentação dos estudiosos e pesquisadores de Campo Mourão, Campina da Lagoa, Presidente Prudente. Apreciou danças (Quinta do Sol) e pronunciamentos de líderes regionais. A Prefeitura Municipal, pelo Prefeito anfitrião Nelson Tureck, ofereceu-lhe o prato típico- carneiro no buraco – e toda a infra-estrutura do evento.

Depois, foi recebido no salão da Igreja da Gruta de Santa Cruz, onde pernoitou.

Dia 21, no Parque do Lago, o peregrino recebeu seu “kit”; compêndio da 3ª peregrinação, mapa, orientações básicas para a caminhada, camiseta, cajado e o Jornal “EntreRios” – o diário oficial do Projeto do Peabiru – diretamente das mãos do diretor-presidente Osvaldo Broza.

Inicia-se, finalmente, a 4ª Peregrinação, com o culto ao Sol – ritual no Totem guarani- conduzido pelo guia espiritual do grupo – peregrino Amani Spachinski de Oliveira.

Leonardo, também peregrino, faz sua parte.

Depois, energizado e com muita disposição, ouvidas as orientações gerais do guia turístico Manoel, o peregrino partiu para a busca da Terra Sem Mal até o caudaloso e misterioso Ivaí, que une, com o Piquiri, esta bela micro-região.

No Antigo Sertãozinho, põe literalmente o pé na estrada para os esperados 49 quilômetros.

A TV globo, que já filmara o ritual do Totem Guarani acompanha tudo. Fará isso pelos dois dias de peregrinação: entrevista peregrinos, grava imagens. Também a TV Carajás está no Antigo Sertãozinho e acompanha, permanentemente, a caminhada, igualmente ouvindo os peregrinos, gravando imagens. Fotos, de todos os lados. O peregrino não deixa de registrar as cenas que o cativam: ora as pedras que sinalizam e informam a história dos lugares, ora as cabeças de vacas, indicando a direção nas fronteiras de municípios e homenageando o adelantado paraguaio dessa antiga província de Guairá, Álvar Nuñez Cabeza de Vaca, que por aqui passou, a cavalo, percorrendo com os guaranis o Caminho de Peabiru, em 1541 e 42.

Nesta peregrinação, o grupo CAM – Cavaleiros e Amazonas de Campo Mourão e região- também peregrina, homenageando o antigo governador guairenho.

Os pés de São Tomé (do cavaleiro peregrino Guelere) complementam os indescritíveis momentos que surpreendem. As paisagens participam da aventura e, denunciando ou sugerindo, sempre encantam.

O milho, alimento sagrado dos guaranis, é presença constante nesta peregrinação. Alguns à espera dos cachos, outros já pendoados e poucos ainda muito pequenos. O seu cheiro verde e gostoso impregna o ar e equilibra o desaforado cheiro da degradação ambiental do vinheto da cana e do veneno para as lavouras que, de quando em vez, atravessam os ares.

Do Antigo Sertãozinho parte o peregrino e logo avista o ponto turístico das chaminezonas. Ali, onde hoje apenas restam apenas esses dois imponentes totens da civilização moderna, o peregrino pisa sons e gemidos da mata enterrada, dos caminhos soterrados, de personagens em conflitos. Ali muitas sagas foram vividas: de tribos rivais, de desbravadores e colonos. Todos disputando um lugar. Venceu a mecanização. Sadi Silva – chefe do Departamento de Terras e Geografia do Paraná _ fazia neste ponto sua parada para comandar o projeto de interiorização que daria ao município de Peabiru a honra de ser batizado como homenagem ao velho Caminho.

Já recebeu, este mesmo solo, agora desnudo e solitário, escola, igreja, venda e tantas benfeitorias – todas disputadas e vencidas pela promessa do ouro fácil das mecanizações que realmente chegou. Talvez o que ninguém suspeitasse é que essa riqueza significaria a exclusão de tantos, o benefício de tão poucos.

Abaixo, a pinguela. Feita especialmente para os peregrinos pelo município de Peabiru, lembra a antiga estrada e as pinguelas desgastadas que finalmente foram esquecidas. Como suspeitar que o Caminho de Peabiru lhes devolveria, um dia, a vida?

Seguindo, nas paisagens cultivadas e entremeadas de alguma matinha aqui e acolá, o peregrino chega aos fundos do local mais proibido e comentado daqueles nem tão velhos tempos de desbravamento regional: o Pinheirinho. Não há como negar que foi a alegria e o consolo de tantos solitários... tragédia para alguns, mas também alento para tantos desvalidos...

Acompanhando a rota, o Bar Manoel dos Macacos, ainda de pé, com a quase apagada inscrição “Tradição desde 1950”, esperando os caminheiros, como há muitos anos esperava os desbravadores para o gole da restauração das suas forças exauridas.

A família do Manoel, popular e sempre disposto, inteirado de tudo e a tudo socorrendo, continua a sua saga . O filho virou poeta. Dos bons. Será lido, em Peabiru, nas cerimônias do almoço, pelo professor Fábio. A poesia que Fábio lerá e que ele fez em homenagem à terra que tanto ama, é uma síntese perfeita da história e dos sentimentos do Caminho de Peabiru, expressando melhor que ninguém o momento em que vivemos esta 4ª peregrinação.

Ali ainda, no bar, o violão de um companheiro homenageia o movimento dos peregrinos. Ora é acompanhada pelo canto de um, de outro, ora apenas ouvido. Mas o encanto, na sua singeleza e pureza deste canto e momento singular, existe. E como existe...

O peregrino atravessa a cidade, os moradores acompanham. É novidade para muitos, para outros, indiferença... Para a memória e para a história é forte, é marca de um novo tempo. Quem o souber viver, verá.

Na venda quatro, após atravessar o asfalto, uma pedra lembra a povoação que ali experimentou as intrépitas histórias da nova colonização já do século XX. Mais à frente, na Fazenda, uma comitiva, com a liderança do Prefeito João Carlos Klein e da primeira-dama Cândida Klein aguarda o peregrino.

Oferecem ao peregrino o hino do município, a poesia do filho de Manoel dos Macacos, uma exposição de fatos históricos ligados ao início da colonização às margens do Peabiru, fotos-entre elas- de Sadi Silva, de pioneiros e o delicioso prato típico de Peabiru, o carneiro ao vinho. O prefeito entrega ao NECAPECAM e ao peregrino, um prato, simbolizando o carinho do município por este caminhante que revive a saga do milenar Caminho.

A chuva ameaça, mas não vem. O peregrino prossegue, ladeando a rodovia, pela antiga estrada. Entra no túnel do canavial que substitui a soja, que substituiu o café. É longo o trecho em que caminhará ao lado do amargo açúcar.

Em Sertãozinho, a lembrança de Campo Mourão, de Peabiru, de onde esse lugar recebeu seu nome, trazido pelos Viana Pereira.

Lá na frente, quilômetros depois, no trevo que separa e une os caminhos de Terra Boa, Engenheiro e Campo Mourão, o prefeito de Engenheiro Beltrão José Dalpont aguarda, solícito. Será um companheiro do início ao fim da caminhada que percorreu seu município.

Cansado, o peregrino encontra no município de Engenheiro Beltrão o repouso para o corpo, a alimentação e a água que finalizarão seu dia de maneira muito gratificante. A escola se preparou para recebê-lo e o Prefeito municipal com sua primeira-dama o acolhem na Associação dos Servidores Municipais com o delicioso prato típico “leitoa à pururuca”.

A noite chega ameaçando chuva. Será bem-vinda.

Na madrugada, entoa seu canto molhado e reconfortante para o peregrino que sonha, que se repõe. Mas, de manhã, as nuvens se retiram, deixando apenas a neblina enfeitar a paisagem.

Depois do café deliciosamente preparado, da espiritualização conduzida por Amani e orientações do guia, o peregrino segue a estrada da rota turística.

Pouco mais à frente lerá na pedra: cemitério dos índios. Na calma paisagem que presentifica, nada resta das sagas ali intensa e dolorosamente vividas. Nem se ouvem sons ou quaisquer outros ruídos delas, nem manchas das tristes venturas de nossos primeiros heróis. Mas, as lembranças que teimosamente ficaram agora devolvem-lhes o direito da sua silente e inconformada voz. Jaime, contador de causos incomparáveis, maravilhosos e Eliseu, apaixonado contador da história dos índios pelos artefatos e objetos líticos, cerâmicos que encontra, são hoje personagens vivos de um tempo longínquo que este Projeto Caminho de Peabiru não deixará morrer.

Mais à frente, na Conserva, no salão da comunidade que já fora tão numerosa e dinâmica, um restaurador almoço aguarda o peregrino. José Dalpont o recebe juntamente com os moradores que ali permanecem desde o desbravamento, com hospitalidade e alegria.

O peregrino tem a oportunidade de conhecer, a uns mil metros dali, um sítio arqueológico que está sendo pesquisado pelo NECAPECAM.

É uma oportunidade também de descanso, de contar histórias, de rir. De viver solidariamente a Terra Sem Mal.

Na comunidade de Triângulo, o peregrino descansa sob a frondosa árvore. Mais alguns quilômetros e chega ao rio Ivaí. Vê-se a balsa, com ela, tantas memórias. Depois que foi interditada, a vida arrefeceu-se na comunidade. As festas nunca mais aconteceram. O povo se evadiu. Há a proposta de restaurá-la, afirma José Dalpont. Encurtará muitas distâncias.

Dali o peregrino retorna ao Triângulo, onde um riquíssimo café, preparado com produtos da roça dali mesmo, será servido. Milho cozido, bolo de milho, pão, queijo, cochinha de mandioca, torta salgada, outros bolos, sucos... sintetizando o carinho daquela gente e a esperança que este Projeto lhes devolva a vida alegre que tinha pelas visitas que se acostumara a receber nos tempos da balsa.

Dali o peregrino segue para a finalização da peregrinação no Salto das Bananeiras. Era mesmo o que faltava para o encantamento completo desses três maravilhosos dias. A cena é indescritível e o peregrino a levará, com certeza, na coleção de seus melhores momentos dessa sua tão curta existência pela Terra. Entre essas paisagens, a história guarda um local, inacessecível, mas já resgatado pelos estudos, em que os índios – em épocas milenares e bem mais recentes também - atravessavam o poderoso Ivaí.

Finda-se a aventura da quarta peregrinação no Caminho de Peabiru da COMCAM.

Descansem em paz, guaranis, nossos dignos ancestrais. A sua história não foi em vão. O peregrino acreditou e viveu a sua Terra Sem Mal.

Parabéns, equipe do NECAPECAM!

Obrigada, em nome do NECAPECAM, aos municípios de Campo Mourão, Peabiru e Engenheiro Beltrão! Obrigada aos seus Prefeitos, Nelson Tureck, João Carlos Klein e José Dalpont!