APONTAMENTOS  DO  III CICLO  DE  ESTUDOS  SOBRE  OS  CAMINHOS  DE  PEABIRU  NA  COMCAM
Coordenação de estudos e textos (Texto complementar:Relatório da VI Peregrinação nos Caminhos de Peabiru) de Sinclair Pozza Casemiro
DATA:  28 DE MAIO  DE 2010.

LOCAL:  CAMPINA DA LAGOA – ANFITEATRO  DO  COLÉGIO ESTADUAL  DE  CAMPINA  DA  LAGOA
PRESENTES: PEDRO ALTOÉ, SECRETÁRIOS MUNICIPAIS DE EDUCAÇÃO, DA AGRICULTURA,COORDENADOR GERAL DA PREFEITURA, MEMBROS DA SECRETARIA DE EDUCAÇÃO, DIRETORES DE ESCOLAS, PROFESSORES, LIONS, SINDICATO DE TRABALHADORES RURAIS, COMUNIDADE.
A seguir, relatam-se alguns apontamentos dos principais pontos discutidos durante o evento:
A sessão de estudos teve início às 16 horas e 20 min e a duração de aproximadamente três horas e meia. O evento reuniu um seleto público campinalagoano cujos interesses sobre o Peabiru se voltam à preservação de seus poucos vestígios e à valorização  deste patrimônio histórico como pertencente às comunidades tradicionais. Daí, o reconhecimento de que qualquer projeto turístico que venha a se implantar esteja pautado no respeito às tradições e costumes das culturas indígenas ligadas aos Caminhos. A sessão de estudos contou com a participação de Pedro Altoé, testemunha viva da história do Peabiru e responsável pela importante pesquisa arqueológica realizada na região, na década de 1970, pela equipe do arqueólogo Igor Chmyz.
O município de Campina da Lagoa se destaca no panorama de estudos sobre o Peabiru porque é detentor da maior experiência em pesquisas arqueológicas já realizadas sobre os Caminhos de Peabiru.
Na década de 1970, o município de Campina da Lagoa, emancipado no ano de 1960, estava vivendo, como todo o estado do Paraná, o acelerado processo de desmatamento para a implantação da lavoura da soja.Pedro Altoé, sociólogo e professor na época, um dos líderes do novo município campinalagoano, se intrigava com a paisagem que via, repleta de “buracos de bugre”, valas (caminhos), murunduns, que denunciavam claramente indícios histórico-arqueológicos.
Sua atitude ,de cidadão consciente, oportunizou, a partir dessas preocupações, que se realizasse no Paraná a maior pesquisa arqueológica sobre o Peabiru: dirigiu-se ao Centro de Estudos Arqueológicos do Paraná-CEPA e convidou o arqueólogo Igor Chmyz para que o mesmo viesse conhecer o que estava acontecendo por ali.Altoé, na ocasião, estava em Curitiba também buscando providências para a criação do Colégio Estadual de Campina da Lagoa.
O próprio arqueólogo declarou em entrevista “a situação naquele momento eu consideraria o ideal para qualquer arqueólogo trabalhar. Por outro lado era o caos porque o Paraná começava a plantar soja. Aquela mata plúvio-tropical toda estava sendo violentamente derrubada”. (1)
Pedro Altoé expõe aos participantes que foram encontrados muitos sítios arqueológicos em Campina da Lagoa e  em Ubiratã (na época Ubiratã compreendia também Juranda). Diz ainda Altoé, lembrando das suas andanças acompanhando as pesquisas de Igor, que os vestígios dos Caminhos de Peabiru avançavam e eles acompanharam-nos em Campina da Lagoa, Ubiratã, (hoje parte é Juranda), Mamborê, Santo Rei (Distrito de Nova Cantu), Mamborê. Encontraram também, na fazenda Slavieiro de Santo Rei, ruínas de fornos, muros e que Igor atribuiu, com seus estudos, serem vestígios do tambo espanhol, de redução jesuítica e de vila espanhola. Chmyz faz uma descrição pormenorizada de seu trabalho em artigo científico (2). Nesse artigo, Chmyz escreve que registrou 23 sítios nas regiões que denominou de Campina da Lagoa, Ubiratã e Corbélia: casas subterrâneas, galerias subterrâneas,aterros, sítios habitações,sítios acampamentos, sítios oficinas e restos de um caminho indígena.
Sobre o caminho indígena, assim fala Igor Chmyz:
“Os primeiros vestígios desta trilha foram constatados nas proximidades de Campina da Lagoa. Segundo a tradição oral, o caminho corresponderia ao movimento das tropas paraguaias durante o conflito entre Brasil e Paraguai. Existem, mesmo, na Prefeitura Municipal de Ubiratã, algumas peças bélicas que foram encontradas em vários pontos de seu território e atribuídas àquele conflito e a outro, mais recente, conhecido como “a Coluna Prestes” (1924).
No decorrer das pesquisas, novos trechos do caminho foram sendo encontrados. Foi possível, inclusive, traçar por quase 30 km a sua orientação geral SO-NE. A primeira extremidade está orientada para o rio Piquiri, alguns quilômetros abaixo da foz do rio Cantu. A outra, aponta para as sedes de Campo Mourão e Peabiru (fig.1).
Nos trechos de mata os vestígios do caminho eram perfeitamente visíveis. A trilha media 1,40 m de largura e 0,40 m de profundidade. Os seus restos desapareciam completamente nos terrenos desmatados ou lavrados, para novamente aparecerem nos trechos protegidos pela vegetação. Não constatamos qualquer revestimento de seu leito. A terra apresentava-se compactada.
Ao  longo do caminho encontramos, espaçadamente, sítios arqueológicos: exclusivamente aterros, casas subterrâneas e a galeria subterrânea.” (3).
Sobre as reduções e vilas, descreve Igor, a partir das pesquisas e análises:
“Entre as reduções fundadas pelos jesuítas na região do Guairá, figurava a de Nossa Senhora da Conceição, estabelecida por Montoya em 1628.Esta redução localizava-se no rio Piquiri,nas proximidades das minas de Tambo (CHMYZ< 1963,111). É provável que os restos daquela redução,ou do Tambo, estejam na área do sítio escavado, talvez entre as bocas dos rios Cantu e Carajá.
Moradores da região informaram que nas matas próximas à foz do rio Cantu são encontradas laranjeiras bravas e bananeiras. Estes indícios da presença do europeu já tivemos oportunidade de constatar em outros lugares históricos do Paraná. Lembramos, mais uma vez, que a extremidade Sudoeste do caminho prospeccionado por nós, apontava para a foz do rio Cantu.
Os irmãos Keller, ao visitarem em 1865, as ruínas da redução jesuítica de Santo Inácio Menor, na foz do rio Santo Inácio junto ao Paranapanema, divisaram, ao sul da antiga povoação, entre o mato, traços distintos de um antigo caminho que a ligaria a Vila Rica do Espírito Santo ou a algumas das reduções jesuíticas mais ao sul (Keller & Keller, 1942:196).
Com estas citações queremos reforçar a nossa suposição de que o Tambo, Nossa Senhora da Conceição e algumas outras reduções estavam situadas nas proximidades de antigos caminhos indígenas, posteriormente aproveitados pelos jesuítas. Pelos relatos históricos sabemos que os estabelecimentos espanhóis e jesuíticos assentaram-se em aldeias indígenas pré-existentes.”(4).
Neste mesmo artigo, Igor Chmyz agradece a colaboração de famílias campinalagoanas e ubiratanenses:
“No transcorrer das pesquisas pelo vale do rio Piquiri, contamos sempre com a valiosa colaboração de seus habitantes. Algumas dessas pessoas contribuíram de tal maneira, com informações, com facilidades a nossas movimentações, nas escavações, etc., que lhes podemos atribuir grande parte dos êxitos alcançados. Assim, queremos tornar público o nosso agradecimento ao Prof. Pedro Altoé e familiares e à família Moch, em Campina da Lagoa, aos médicos José Rodrigues Netto e João Baptista Guimarães Costa, ao prefeito de Ubiratã, Sr, Áureo Zamprônio e aos srs. Pedro de Oliveira, Wilde Bordin e Domingos Coginotti, funcionários da mesma prefeitura municipal.”(5).
Essas falas do arqueólogo referendam a importância histórica das pesquisas realizadas na região de Campina da Lagoa e comprovam a existência dos caminhos de Peabiru na região.
O Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Caminho de Peapiru na COMCAM- NECAPECAM, com base também nessas informações, traçou a rota simbólica de peregrinação turística nessa mesma região e realizou nela o evento de peregrinação nos dias 20 a 22 de abril de 2007. O itinerário, de aproximadamente 59 km, percorreu os municípios de Campina da Lagoa, Distrito de Bela Vista do Piquiri e Ubiratã. O relatório deste evento encontra-se nesta mesma página www.caminhodepeabiru.com.br. É só clicar em Relatório da VI Peregrinação nos Caminhos de Peabiru. O arqueólogo Igor Chmyz esteve presente na noite de 20 de abril desse evento de peregrinação e fez palestra sobre suas pesquisas na região, respondeu perguntas. Muito importante também foi seu reencontro, após 37 anos, com a comunidade de pesquisa. Foi uma noite inesquecível.
Neste ano de 2010, ao ser entrevistado, Igor Chmyz assim se manifestou sobre seu reencontro com pesquisandos neste 20 de abril de 2007 em Campina da Lagoa, sobre os caminhos de   Peabiru e a colonização espanhola do século XVI:

1. Além da satisfação de rever amigos e a família Pedro Altoé, incentivadores das pesquisas em Campina da Lagoa e Ubiratã que culminaram com a constatação de um trecho de caminho indígena, tive o prazer de verificar o sério trabalho de conscientização desenvolvido pelo NECAPECAM junto à comunidade local, tendo como tema o Peabiru.

2. A informação mais consistente sobre o sistema de caminhos indígenas conhecido como Peabiru, datada de 1639, devemos a Antonio Ruiz de Montoya, um dos jesuítas mais atuantes do ciclo reducional no Paraná daquele século. A descrição por ele feita dos caminhos, corresponde às características do que percorremos em 1970.
Durante a dominação espanhola, que, desde meados do século XVI, abrangia grande parte do atual Paraná, tanto as suas vilas como as suas reduções foram estabelecidas ao lado dos caminhos do Peabiru ou nas suas proximidades, atestando a importância daquelas vias de comunicação no processo de ocupação territorial. Portugueses também os utilizaram, inclusive e infelizmente os bandeirantes preadores responsáveis pela desestruturação do projeto jesuítico.
Os caminhos, abertos durante a ocupação dos índios Jê no Paraná e estados vizinhos, que deles se utilizavam para a comunicação entre as aldeias e campos de caça, coleta e plantio à medida em que se deslocavam pelo território, foram também usados pelos índios tupi-guarani quando estes passaram a dominar os espaços por aqueles abandonados.(6)
Porém, se toda essa história é de suma importância, convém também acrescentarmos que o Peabiru é lembrado ainda pelos Guarani como caminho sagrado. Se os Itararés o construíram como via de integração, comunicação, sobrevivência, os Guarani, por sua vez, como portadores da crença da Terra Sem Mal, o utilizaram durante muitos séculos em suas migrações. Conhecida com IVI MARÃ EY, a Busca da Terra Sem Mal se fez também pelos caminhos de Peabiru, sendo essa rota, portanto, considerada sagrada pela nação guarani. Quando falamos em peregrinação turística e simbólica pelo Peabiru, não podemos deixar de considerar esse importante fato testemunhado por pesquisadores desde o período colonial até a atualidade.
Vó Almerinda, Xamã da tekoá Araí Werã, situada em Santa Amélia, Paraná, assim descreve o Peabiru, em entrevista datada de fevereiro de 2007:
“É o caminho da terra, né? Veio que veio, veio lá do céu e encosto no lugar onde eles fizeram, e começo a tremê, aquele caminho tremia, tremia e tremia.
Mais no meio daquela tribo que tava rezando tinha uma muié i um hômi que era abusante. (Que) num crê muito, né? Aí eles rezando, rezando, mas por causa daqueles dois abusante, o caminho subiu trá veiz, sumiu no céu. Sabe qui eles fizeram?
Daí as muié tava dançando lá com taquá (takuá), nhanderu com mbaraká, aí viro contra um o outro, quebrava mbaraká na cabeça do outro, as moça brigando entre as moça, rapaziada brigando entre as rapaziada, (eles) sentia que o caminho sumia outra vez, sumiiiu no céu outra vez. Senão eles ia embora (eles teriam ido embora para o céu). (Mas) por causa daqueles dois abusante, num desceu no chão pra levar eles...ah...tem muita história, muita história, muito triste (Obs.: a anciã chora).
Quando eles tão pedindo a Nhandejara pra abrir o caminho assim, eles jejua, né? Comida assim (comida comum, comida de ‘branco’)num come.  (O que eles comem) é canjica, mel do mato, com água muito fria ainda. Assim que eles comia.É. lá é terra...como é que se fala...lá, Yvy Mburana, terra que encanto pro índio ficá, diz que existe mesmo isso aí. Mas os índio tá lá, né?”(7)
Dessa forma, peregrinar pelo Peabiru é sobretudo reviver tradições indígenas: Itararés, Guarani...quantos outros também o percorreram pelos mais diferentes motivos? Essa é a mensagem principal e  requer um compromisso que os campinalagoanos presentes no III Ciclo de Estudos selaram com a Coordenadora do NECAPCAM: desenvolver turisticamente os caminhos de Peabiru no firme propósito de preservar a memória indígena, respeitar seus valores sejam eles de comunicação e integração, sejam eles sagrados como foram para os Guarani.
Os líderes presentes nesta sessão de estudos vivenciam trechos do caminho ainda preservados em matas. Especialmente Manoel, Netto e Cruz. E estão interessados em torná-los pontos de visitação conforme normas estabelecidas, contribuindo, assim, para o desenvolvimento do turismo histórico em Campina da Lagoa. Um projeto nesse sentido está sendo pensado.

Notas:
(1)  Entrevista com Igor Chmyz, realizada por Luiz Omar Gabardo, professor de Economia   na Universidade Estadual de Ponta Grossa, UEPG, Paraná, em 2004.
(2),(3),(4),(5): CHMYZ, I. & SAUNER, Z. Nota prévia sobre as pesquisas arqueológicas no Vale do Rio Piquiri. Dédalo. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia. São Paulo, 7(13):7-36. 1971.
(6) Entrevista com Igor Chymz, realizada por Sinclair Pozza Casemiro, Coordenadora de Acervo e Pesquisas do NECAPECAM, em sexta-feira, 19 de fev. de 2010, 11:14.
(7) Entrevista com Vó Almerinda, realizada por Sinclair Pozza Casemiro, Coordenadora de Acervo e Pesquisa do NECAPECAM na aldeia (tekoá) Araí Werã em Santa Amélia, Paraná, em 2007.

REFERÊNCIAS
BOND, Rosana. História do Caminho de Peabiru. RJ, A Nova Democracia, 2009.
CASEMIRO, Sinclair Pozza. Terra Sem Mal: uma leitura com a participação do relato da guarani-nhandeva do interior do Paraná, da Reserva Araí Werã “Nuvem Brilhante”. In: V Simpósio sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM-Micro-Região 12 do Paraná. Campo Mourão, Sisgraf, 2007.
CHMYZ, I. & SAUNER, Z. Nota prévia sobre as pesquisas arqueológicas no Vale do Rio Piquiri. Dédalo. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia. São Paulo, 7(13):7-36. 1971.