CICLO DE ESTUDOS SOBRE A TEMÁTICA DOS CAMINHOS DE PEABIRU NA COMCAM O NECAPECAM está desenvolvendo estudos itinerantes sobre os Caminhos de Peabiru na COMCAM. Mais uma proposta de conscientização de nossas raízes pré-coloniais, indígenas.Junto, uma tentativa de compreender melhor o presente, plural e mestiço.Trata-se de uma iniciativa que busca construir, com a região, sentidos sobre o tema, Peabiru, Caminho milenar que foi uma de suas vias mais importantes de comunicação desde as comunidades tradicionais, do século XVI e antes dele.As colonizações contemporâneas não o esqueceram. Foram muitos os caminhos indígenas. Foram muitas as nações indígenas que neste território viveram e continuam deitando suas raízes em tradições, em memórias. São poucas, mas significativas, as que continuam, cotidianamente, a construir seus espaços entre os não índios, resistindo à invisibilidade ideológica que está se tornando obsoleta, sempre injustificável. Permanecem saberes, lidas, lendas, crenças, ciências, tecnologias. Permanecem os povos.Temos muito a aprender com eles. Índios e não índios dialogam na busca de significação de raízes que nos unem, entre elas, os Caminhos de Peabiru. A perspectiva dos estudos é no método do materialismo histórico, que permite a análise crítica do conhecimento e do fenômeno a ser interpretado. Busca-se compor uma idéia de totalidade histórica para com a realidade social, acabando por expor as contradições da sociedade capitalista no campo político, econômico e social em que se insere a temática do Peabiru. Complementarmente, para se respeitar a subjetividade como processo de construção de informações e sentidos, agregam-se os fundamentos da epistemologia da pesquisa qualitativa, base de nossos projetos investigativos em campo. O projeto de estudos prevê encontros, chamados “Ciclos”, mensais, itinerantes. Ou seja, acontecendo um a um, em cada município da COMCAM. O primeiro já aconteceu. Foi na Fundação Cultural de Campo Mourão, no dia 26 de março de 2010. Uma visão geral do que foi discutido está apresentada a seguir. APONTAMENTOS DO I CICLO DE ESTUDOS SOBRE OS CAMINHOS DE PEABIRU NA COMCAM Coordenação de estudos e textos de Sinclair Pozza Casemiro DATA: 26 DE MARÇO DE 2010.
Os Caminhos de Peabiru foram apresentados à sociedade não índia desde o século XVI. Há relatos de que o primeiro não índio que o conheceu tenha sido Aleixo Garcia na década de 1520. Garcia foi um náufrago, que acabou convivendo, por causa de seu naufrágio, em Santa Catarina, com uma aldeia indígena guarani. Segundo esses relatos, Aleixo Garcia teve companheira e filho. O seu filho é tido como o primeiro mestiço brasileiro conhecido. Como se tornou parte da aldeia, não apenas teve amplo conhecimento sobre o Caminho como o percorreu, com aproximadamente 2.000 guaranis, até o Peru, em busca de ouro e prata. Levou aproximadamente três anos sua viagem e acabou morto misteriosamente no retorno do percurso, talvez pelos próprios guaranis, na atual região de Foz do Iguaçu. Depois, temos relatos de Cabeza de Vaca, adelantado paraguaio que percorreu o tronco principal do Peabiru na década de 1540. Teve escrivão o acompanhando, por ser viagem oficial e até hoje podemos ter acesso a esses escritos que se intitulam “Naufrágios e Comentários”. Pelo Tratado de Tordesilhas (1494), a região em que hoje se localiza o estado do Paraná era de domínio espanhol. Foi organizada, pela coroa espanhola, na Província Del Guairá e compreendia praticamente o atual estado do Paraná, parte de São Paulo, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul.Foi essa região visitada também por portugueses, mas, especialmente pelos espanhóis, já que se viam mesmo como donos das suas terras. Como a questão dos limites do Tratado de Tordesilhas era bastante polêmica, foi duramente contestada e, no século XVII, aconteceram as invasões portuguesas por meio das Bandeiras paulistas. Essas invasões foram e continuam sendo um episódio bastante divulgado nos livros de História, que definiu os limites brasileiros em sangrentas batalhas de bandeirantes contra índios e missionários espanhóis no território guairenho. Registra-se como término dessas lutas, nesse território guairenho em que hoje se inscreve o atual estado do Paraná,o ano de 1632. Outros viajantes, náufragos, aventureiros, colonizadores também conheceram o Peabiru. Antônio Ruiz de Montoya, o jesuíta líder das missões jesuíticas do Guairá, quando escreveu seus apontamentos, também apresentou-nos o Peabiru em seus escritos. Traduziu-o como “Viagem”, atribuiu a construção dele a São Tomé e fez sua descrição,como tendo cerca de 80 cm de largura e 40 cm de profundidade, formando um “leito”, coberto por um tipo de gramínea em toda a sua extensão. No período colonial, essa região do atual Paraná, de domínio espanhol, era habitada por diversas populações indígenas Para efetivar seu domínio, a coroa espanhola estabeleceu três vilas: Ontiveros (em 1544, na foz do Piquiri); Ciudad Real Del Guairá (1555, confluência do Piquiri e Paraná); Villa Rica del Spiritu Santu (1576, em duas localizações. A primeira ainda é polêmica, debatem-se pesquisadores se na região de Nova Cantu ou mais a Leste; a segunda é certa: onde hoje está situado o município de Fênix e onde está instalado o Museu de Vila Rica do Espírito Santo. Cláudia Inês Parellada, do Museu Paranaense, escreveu: “Um tesouro herdado; os vestígios arqueológicos da cidade colonial espanhola de Villa Rica del Spiritu Santu/ Fênix- Paraná”, como Dissertação de Mestrado em Antropologia Social, pela UFPR, em 1997. A justificativa de ter sido transplantada a Villa Rica Del Spiritu Santu, para a foz do Corumbataí, pelos espanhóis, foi dada por ficar, assim, centralizando as ações do domínio espanhol, facilitando a sua comunicação e a sua integração, já que ali era o ponto central da Provincia Del Guairá. Vila Rica do Espírito Santo é chamada de “Cidade Andarilha” pelos paraguaios. No Paraguai existe atualmente o município de Villa Rica Del Spiritu Santu, como a sua última localização. Depois de migrar por duas vezes no Brasil, migrou por mais vezes no Paraguai.Existe, inclusive, na cidade, o histórico de suas migrações, contado em monumentos, relatando, também, os eventos acontecidos no Brasil, na Província Del Guairá. Além das vilas espanholas, houve, em território hoje paranaense, o movimento missionário da Companhia de Jesus. O projeto de reduções jesuíticas se iniciou, porém, com a invasão dos bandeirantes, não foi possível sua consolidação em todas as localidades planejadas. Jurandir Coronado Aguilar relata que eram chamadas “pueblos”, “povoações”. Ele cita 13: às margens do Paranapanema, Nuestra Señora de Loreto (1610) e San Ignácio de Meni (1612); às margens do Tibagi, San Francisco Javier (1622), Nuestra Señora de La Encarnación (1625), San José (1625) e San Miguel (1627); às proximidades do Ivaí e seus afluentes, Os Sete Angeles, quase à cabeceira do Corumbataí(1627), San Pablo, na confluência do rio Iniaí (1627), San Antonio no Ibiticoí, à margem do rio Ivaí na foz do rio das Antas (1627), San Tomas às margens do Corumbataí nas proximidades de Vila Rica do Espírito Santo (1628) e Jesus Maria nas cabeceiras do Ivaí (1628); às margens do rio Piquiri, Nuestra Señora de La Concepción (1627-1628) e de San Pedro (1627). Encontramos registros de 11, 12, 13, 14 e 16, porém nomeadas, apenas as treze, citadas pelo Jurandir Coronado Aguilar. Importante ressaltar que , embora haja documentação no Brasil sobre a temática do Peabiru, das Missões, da colonização espanhola, vamos encontrar fartamente fontes para seus estudos no Paraguai, na Espanha e no Vaticano. Isso se explica pela intencionalidade de cada região na explicitação dos fatos e na perspectiva discursiva que cada um sustenta sobre tais temas. O que levou, ou não, à preservação de documentos e mesmo a sua produção com relação aos acontecimentos da época. Há teses que hoje permitem os estudos do Peabiru na COMCAM. Arqueologicamente, consideram-se as pesquisas de Igor Chmyz, na década de 1970, na região de Campina da Lagoa e adjacências. O arqueólogo constatou tratar-se de caminhos de integração, comunicação entre os núcleos de povoação indígena da época (anos 900 a 1.300)e com fins de sobrevivência. Atribui ao Itararé a sua construção. Nas suas pesquisas, encontrou casas subterrâneas, aterros funerários, objetos de uso e outros achados que identificaram-se como sendo dessa população. Igor, em sua descrição, aponta os caminhos seguindo direção a Campo Mourão e Peabiru, entre outras considerações. Comparou seu traçado como “uma árvore deitada” e diz tratar-se de “Caminhos” e não “Caminho”. Diz serem tortuosos os caminhos.É pouco possível ser linear uma via naquele período, por condições de relevo e também pela concepção das construções indígenas de moradia, sempre circulares (Itararés) ou esparsas (guarani). Outra tese que possibilita os estudos do Peabiru na COMCAM vem ligada ao povo guarani. Relatos contemporâneos de indígenas dessa descendência nos contam das migrações messiânicas que faziam seus ascendentes em Busca da Terra Sem Mal “IVY MARÃ EY”. Tradição muito dificultada pela conjuntura econômico-cultural dos não índios. Há registros acadêmicos (artigos, teses, dissertações, monografias) abundantes de tais migrações, estudos que procuram interpretar a Terra Sem Mal(ES). Rosana Bond é estudiosa que vem se dedicando a esse tema e escreveu dois livros especificamente sobre o Peabiru: em 1996, pela Fundação Cultural de Campo Mourão, lançou “Caminho de Peabiru” e em 2006, pela “Nova Democracia”, Santa Catarina, lançou “Histórias do Caminho de Peabiru”. A autora também publicou “Saga de Aleixo Garcia” em 1998 pela Insular, Santa Catarina. Como colaboradores neste diálogo sobre o Caminho de Peabiru, entre nós, estudiosos do NECAPECAM, contamos com Tupã Werã, que esteve com Rosana Bond em Campo Mourão no ano de 2004, da aldeia Morro dos Cavalos de Santa Catarina, a cacique Margarite, de Monday, em peregrinação de 2006, no Paraguai, Vó Almerinda, em depoimento, da aldeia Arai Werã, município de Santa Amélia, em 2007. Além de muitos outros depoimentos em artigos e trabalhos acadêmicos principalmente em estados que compuseram o Guairá dos séculos XVI e XVII. Nimiendaju e Helene Clastres são clássicos que estudarem a Terra Sem Mal, mas não falam do Peabiru. O que dá para se perceber, nos relatos encontrados, pelo NECAPECAM ou na bibliografia consultada, é uma certa variação e inclusão de concepções cristãs no próprio mito em alguns casos. Como, por exemplo, quando diz o guarani, que o Peabiru “veio que veio, veio lá do céu e encostô no lugar onde eles fizeram...”, devemos lembrar que “céu” é concepção não índia, cristã. Há muito a que se estudar sobre esse tema, sobre sua ressignificação, portanto. São essas três bases que fundamentam atualmente os estudos e pesquisas do NECAPECAM, além de outras discussões e contribuições com obras esclarecedoras sobre o Paraná colonial e as populações e movimentos em território hoje paranaense desde períodos anteriores ainda ao século XVI. Para nós, do NECAPECAM, o importante é discutir as teses e estudos que existem sobre o tema, desde o século XVI, numa perspectiva histórico crítica em que as contradições sejam apresentadas, em que se possibilite a dialética entre os estudiosos. Tem sido encontradas mais perguntas que respostas, é tema polêmico e que leva a muitas pesquisas, sem pretensão de alcançar “verdades”. Mas, lembrando, Peabiru é bem imaterial e traz a marca do sagrado para o guarani; quem o estudo não pode desconsiderar esse fato. Peabiru é também uma possibilidade de reconhecer a inclusão das comunidades indígenas, não apenas guarani e itararé, de valorizar suas crenças, tradições, de forma interativa na sociedade brasileira. São histórias, costumes, tradições, mitos que caracterizam nosso povo enquanto um coletivo maior, é preciso consciência dessa realidade e deixar de negá-la, subestimá-la , não respeitá-la. A concepção sobre a história indígena no país, sobre a nossa mistiçagem, real, explicitada, são desafios que se fazem contemporâneos para a sociedade como um todo. Ao lado de um puritanismo ingênuo, concepções diversas sobre índios, falseando os fatos cotidianos, dificultam uma interação mais verdadeira entre índios e não índios. Os estudos e pesquisas do NECAPECAM que subsidiaram o mapeamento das rotas simbólicas e turísticas de peregrinação procuraram seguir o mais proximamente possível movimentos indígenas na região na sua espacialidade territorial. Para tanto, houve metodologia científica própria. O traçado linear do Peabiru apresentado em muitos dos estudos que tratam do tema, para o NECAPECAM, obedece a uma mera estilização didática. Não pode ser tomado como real. Pela forma como se apresentam as moradias das comunidades tradicionais, a tendência é pensar seu traçado de forma circular ou tortuosa. O percurso apresentado nos relatos em que viajantes e colonizadores nele fizeram, nos séculos XVI e XVII , de forma linear, corresponde, a nosso ver, aos objetivos que tiveram em suas viagens, ou mesmo a construções com objetivos próprios. Mesmo com relação à Terra Sem Mal, quando de parte dele se utilizou o guarani. Como saber? Quem os apresentou e por quê? As peregrinações atuais na COMCAM são apenas simbólicas, uma forma de, turisticamente, conscientizar a região da importante via que, entre outras, deu acesso ao não índio, que foi canal de integração, comunicação, messianismo às comunidades indígenas, entre outros caminhos seus. Por extensão, conscientizar-se de que a região foi densamente povoada por diversos povos indígenas, com vida própria, soberania, conflitos humanos e de domínio político, social, entre si, subjugados, depois, de maneira muito intensa, pelos não índios, porém, com a capacidade, hoje, ainda, de continuar dando sentido às suas tradições e história.
LEITURAS COMPLEMENTARES TEXTO 1. IVY MARÃ EY Todos os povos têm seus mitos.
TEXTO 2. CAMINHOS DE PEABIRU Para o arqueólogo Igor Chmyz, o Peabiru foi aberto pelos Itararés. Igor registrou, na década de 1970, trechos desse caminho na região do município de Campina da Lagoa no Paraná. Conseguiu encontrar aproximadamente 30 quilômetros do trechos ligados com os sítios arqueológicos. Iniciava-se o plantio da soja no Paraná, toda a mata pluvio-tropical estava sendo violentamente derrubada. Perto dos trechos do caminho de Peabiru havia casas subterrâneas e aterros funerários. Curiosamente era um caminho que não subia as elevações, contornava-as, sendo, pois, muito tortuoso. Exigia mais tempo para ser percorrido, porém cansava menos o usuário. Um caminho lógico, aproveitava os terrenos menos inclinados. Para Rosana Bond, autora dos livros “O Caminho de Peabiru” (1996) e “Histórias do Caminho de Peabiru” (2009), o Peabiru possui grande importância histórica, pois entre outros objetivos, serviu para as andanças e grandes migrações messiânicas dos Guarani em Busca da Terra Sem Males. Ambos, Igor e Rosana relatam que o Peabiru foi útil, mais tarde, para a descoberta de riquezas, criação de missões religiosas, comércio, fundação de povoados e cidades. O NECAPECAM vê o Peabiru como um bem arqueológico da comunidade indígena, negado, desqualificado, incompreendido por muitas vozes não-índias de um passado ainda presente que precisa se encorajar e compreender o multiculturalismo, a pluralidade de sentidos que ele provoca hoje e desde sempre entre nós, na nossa sociedade. Porque, principalmente, essa compreensão pode ser emancipatória, convergindo índios e não índios na construção de uma sociedade melhor: IVI MARA EY. Estudar o Peabiru sem esse compromisso, é apropriar-se mais uma vez de um bem da comunidade tradicional de forma espúria, negadora. Nossos esforços vão humildemente no sentido contrário. Estudar o Peabiru na COMCAM, nos seus Caminhos e entorno deles, permite-nos respeitar,dar vez e voz a essa comunidade e aproximarmo-nos de um passado muito distante, indígena, tornando-nos mais seguros no presente para compreender as contradições e fraquezas humanas, a diversidade de culturas de seu entorno, nas quais nos incluímos, preparando-nos para saber como caminhar no futuro.
REFERÊNCIAS AGUILAR, J. C. Conquista Espiritual: A História da Evangelização na Província Guairá na obra de Antônio Ruiz de Montoya, S.1. (1585 – 1652). Roma: Editrice Pontifícia Università Gregoriana, 2002. BOND, Rosana. A Saga de Aleixo Garcia: o descobridor do Império Inca. Florianópolis: Insular: Fundação Franklin Cascaes, 1998. CABEZA DE VACA. Naufrágios e Comentários. Porto Alegre. L&PM Pocket. 1999. CASEMIRO, Sinclair P. (Org.).Terra Sem Mal: uma leitura com a participação do relato da guarani nhandeva do interior do Paraná, da Reserva Arai Werã ”Nuvem Brilhante”. V Simpósio sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM Micro-Região 12 do Paraná. Campo Mourão, Editora Soepal, 2007. CHMYZ, I. & SAUNER, Z. Nota prévia sobre as pesquisas arqueológicas no Vale do Rio Piquiri. Dédalo. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia. São Paulo, 7(13):7-36. 1971 PARELLADA, Cláudia Inês. Um tesouro herdado; os vestígios arqueológicos da cidade colonial espanhola de Villa Rica del Spiritu Santu/ Fênix- Paraná. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social, UFPR, 1997.
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