APONTAMENTOS DO IV CICLO DE ESTUDOS SOBRE OS CAMINHOS DE PEABIRU NA COMCAM
Coordenação de estudos e textos de Sinclair Pozza Casemiro
DATA: 24 DE JUNHO DE 2010
LOCAL: COMUNIDADE BOA ESPERANÇA DO MUNICÍPIO DE CAMPO MOURÃO-PR- ESCOLA MUNICIPAL “ZACARIAS DE PAULA XAVIER” E ESCOLA ESTADUAL “TANCREDO DE ALMEIDA NEVES”.
PRESENTES: ORIENTADORA , PROFESSORES, AGENTES DE SAÚDE, TODOS OS ALUNOS DE ENSINO FUNDAMENTAL, COMUNIDADE.
OBS.: por se tratar de alunos do ensino fundamental, a palestra foi bastante interativa e ilustrada por fotos, gravuras, estórias. O texto a seguir não é fiel a essas interações, mas apenas uma espécie de roteiro da fala que se desenvolveu na sessão e provocou a dialogia. A duração foi de aproximadamente duas horas – das 10h às 12h.
A sessão iniciou-se com um aluno de 6ª série desenhando, a pedido da palestrante, uma floresta no quadro de giz. Em seguida, a palestrante pediu-lhe que imaginasse ali caminhos e que os desenhasse. Os caminhos saíram um pouco toruosos, desviando de grossas árvores. A palestrante elogiou o desenho e complementou com a frase: então, era mais ou menos assim que era a paisagem nos anos de 900 a 1300, com os caminhos de Peabiru. Tempos em que essa nossa região, esse lugar aqui onde estamos neste momento, era uma grandiosa e virgem floresta. Essa floresta era habitada por indígenas e esses caminhos foram abertos por eles. Segundo Igor Chmyz, arqueólogo que os pesquisou em 1970 e 1971 na região de Campina da Lagoa, no Paraná, os indígenas que os construíram foram os Itararés entre os anos 900 e 1300. E dizemos que esses caminhos passavam aqui, neste exato lugar onde estamos, porque esta estrada que passa aqui , atrás desta parede (apontando a parede detrás da sala) essa estrada que vocês usam todos os dias, é o Caminho de Peabiru, ou o Caminho dos Jesuítas, conforme contam os antigos que primeiro vieram para esta comunidade. Hoje ela é larga, bem diferente, mas não era assim. Esses caminhos tinham mais ou menos oitenta centímetros de largura e eram afundados no chão, como uma vala, por mais ou menos quarenta centímetros. E eram cobertos por uma graminha “puxa-tripa”, que os protegia e que se espalhava quando se caminhava neles, pelos próprios pés, de forma que estavam sempre forrados. Caminhos inteligentes, que serviam para a comunicação, para as trocas, para a integração desses povos indígenas. Os Caminhos de Peabiru também são sagrados, para os Guarani. Isso porque eles também os usavam, caminhando em busca da Terra Sem Mal. A Terra Sem Mal é um lugar onde não existia raiva, ambição, inveja, fome,enfim, um lugar encantado que os Guarani buscavam, lugar sagrado. Mas, às vezes não se utilizavam apenas desses caminhos, às vezes, adentravam a floresta, caminhavam por entre a mata, conforme Nhanderu, seu guia espiritual, os orientava. Ainda hoje existe essa crença. Alguns Guarani foram vistos há poucos anos migrando em busca da Terra Sem Mal, para os lados do litoral. Mas, então, já não usavam o Peabiru, mas as estradas existentes da modernidade.
Esta região da Comunidade Boa Esperança tem grande importância histórica porque guarda a memória dos Caminhos de Peabiru e fez boa parte de suas estradas bem em cima deles. Ali, naquela mata, que podemos ver desta escola, existe um trechinho desses caminhos, que conserva melhor a aparência dos velhos trios.
Perto daqui, na Fazenda Guarnecida, ou Boi Cotó (mostrando a foto), de propriedade do Sr. Antônio Gancedo (apresentação do Sr. Gancedo que está na sala) dá para ver as marcas desses caminhos no meio do pasto e lá no alto do morro, um trechinho igual ao da mata. São documentos, pois registram uma parte de nosso passado.
Esses caminhos seguiam rumo a Barbosa Ferraz, a Peabiru, a Campo Mourão e a Fênix. Se vocês forem ao Boi Cotó vocês verão uma paisagem diferente, numa encruzilhada (mostrando a gravura), com algumas pedras escritas e um poste com uma cabeça de vaca. Repararam? Nas pedras estão escritas algumas informações: sobre os municípios de fronteira, que são quatro: Campo Mourão, Peabiru, Barbosa Ferraz, Fênix e informações sobre Cabeza de Vaca. Por que aquela cabeça de vaca? Ela representa um fato histórico: a passagem de Álvar Nuñez Cabeza de Vaca, governador do Paraguai, pelos Caminhos de Peabiru quando ele veio, em 1542, para nossa região, reconhecer o território como domínio da Espanha. Ele veio com 25 cavalos e 250 homens e foi o encarregado de tomar posse dessas terras para a Espanha. Não foi exatamente aqui que ele passou, ele passou por um outro trecho dos Caminhos de Peabiru, mas nós, para lembrar esse episódio, colocamos uma cabeça de vaca em cada lugar que é fronteira de municípios. Quando eu falo nós, eu falo de nós que pertencemos ao Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre os Caminhos de Peabiru da Comcam-NECAPECAM. Nosso grupo estuda os Caminhos de Peabiru, os tempos pré-coloniais e o Guairá. Guairá é como se chamava a região onde estamos e onde hoje é o Estado do Paraná praticamente inteiro (mostrando a gravura), quando esse território pertencia à Espanha.
E em volta desses Caminhos ainda hoje nós encontramos sinais da vida dos tempos passados: vestígios de cemitério indígena, esses trechinhos de caminhos de que estamos falando, cacos de cerâmica, vasilhas e instrumentos de pedra (mostrando gravuras). Esses caminhos chegavam a Fênix, onde foi, no Guairá, a cidade espanhola de Vila Rica do Espírito Santo, onde existiu uma missão jesuítica, onde havia muitos índios principalmente da nação Guarani. Mas, não só, havias várias outras nações. Hoje lá existe, bem nos locais dessa vila e dessa missão, uma reserva florestal e o Parque Estadual “Vila Rica do Espírito Santo” (mostrando gravura). O Museu Estadual, sob a coordenação da pesquisadora Cláudia Parellada, tombou a área com as ruínas daquela história na década de 1970 e faz ali estudos permanentes. A vila espanhola e a missão foram completamente destruídas na década de 1630 pelos bandeirantes paulistas Raposo Tavares e Manuel Preto a mando do governo português que pretendeu aumentar seus domínios até o Rio Paraná. No episódio que se chamou “êxodo guairenho”, os índios e os jesuítas fugiram rumo ao Paraguai e ao Tape. Por volta de doze mil índios fugiram com o missionário Montoya, outros milhares foram levados como escravos para o norte do país e muitos outros morreram.
Hoje, o NECAPECAM estuda essas histórias bem como histórias do tempo dos pioneiros, da contemporaneidade, procurando conhecer melhor nossas raízes. E procura resgatar algumas tradições, como por exemplo, as festas juninas, da forma como eram festejadas pelos colonizadores nacionais na década de sessenta e setenta. Neste próximo sábado, dia 26, haverá festa junina no boi Cotó com fogueira, mastro, terço, pipoca, quentão, chocolate, pinhão e muita dança. Um evento feito pelo projeto Peabiru de resgate histórico.O líder da comunidade, Antônio Gancedo, é o maior responsável por essa conquista.
Histórias guaranis
Terra Sem Mal
Nhanderu pediu para Txamoé preparar seu povo porque ia haver um perigo na Terra e ele ia protegê-los. Txamoé ficou receoso, pensando que não iam acreditar nele, mas, mesmo assim, chamou-os e passou a prepará-los. Levariam sete dias se preparando para ir no Tape Marã Ey (Terra Sem Mal), onde há muita abundância, não há brigas, animosidades, inveja, nada. Tudo é muito bonito e bom. Mas, muitos duvidavam, mesmo. Diziam que Txamoé estava velho, já não dizia coisa com coisa, não dava mais para acreditar nele. Outros acreditavam. O jovem mais teimoso, abusante, até se separou do grupo. Tinha armado uma armadilha para cação e se foi no meio da mata, para recolher a caça que esperava encontrar. Chegou lá, não havia caça. E a armadilha estava desmanchada. E ele, olhando para trás, viu uma luz muito forte, um grande clarão, era uma grande estrada iluminada. E ele entendeu que era a estrada que Txamoé falava. Correu para alcançar, mas ficava pendurado, não conseguia entrar nela. Até que caiu e, no chão, começou a se arrastar. Foi indo que virou um tatu. Nunca mais viu a estrada.”
Rosinei foi quem me contou essa história, é da Tekoá Araí Werã em Santa Amélia.
Chivi e Chivií
A onça (chivi), tinha muita inveja do gato porque ele sabia pular muito melhor que ela. E ela não conseguia pegá-lo. Fez-se de boazinha e procurou o gato (chivií). Depois de muito insistir, de agradar o gato, ele acabou cedendo e passou a ensinar a onça a pular. Mas, com a promessa de que ela jamais o atacaria. Separaram-se e, tempos depois, a onça viu o gato, sentiu vontade de atacá-lo e acreditou que já estava melhor que ele, que pulava muito mais bem. E ela pulava bem, mesmo. Então, numa emboscada, pulou sobre o gato que, imediatamente, pulou para trás. Ela, então, reclamou: _Isto você não me ensinou!
O gato saiu dando risada... Por isso ela é chivi e ele é chiví. Ninguém sabe dar o pulo do gato até hoje, muito menos ela, a onça (chivi). Quem me contou essa história foi o Rodrigo da Tekoá Porã, no município de Guaíra.