APONTAMENTOS  DO  II  CICLO  DE  ESTUDOS  SOBRE  OS  CAMINHOS  DE  PEABIRU  NA  COMCAM
Coordenação de estudos e textos de Sinclair Pozza Casemiro
DATA:  21 DE MAIO  DE 2010.

LOCAL:  CAMPO MOURÃO-PR: FECILCAM - SALA E-15
PRESENTES: MUNICÌPIOS DE CAMPO MOURÃO, PEABIRU, ARARUNA, TERRA BOA, ENGENHEIRO BELTRÃO)

Iniciou-se a sessão de estudos às 15h 30min após sessão de Curso “Arte do Discurso”). Seguiu-se a exposição do tema “Breve olhar sobre os movimentos indígenas do Paraná” solicitado pelos universitários, tendo como docente a Profa. Sinclair Pozza Casemiro, num período de aproximadamente uma hora. A seguir, relatam-se alguns apontamentos dos principais pontos discutidos durante o evento:
BREVE OLHAR SOBRE MOVIMENTOS  INDÍGENAS  NO  PARANÁ
O tema é polissêmico: de que “movimentos” podemos falar? Ou melhor, a partir de que tipo de movimentos podemos abordar alguns aspectos da dinâmica indígena no Paraná? O vocábulo nos remete a pelo menos dois sentidos principais: movimentos de espaço, movimentos sócio-culturais. Nossa sessão vai se reportar principalmente ao segundo sentido-  movimentos sócio-culturais. A partir deles, a movimentação de espaço que ele provoca. Ou seja: a intensa movimentação sócio-cultural no espaço territorial do Paraná dos grupos indígenas significou sua movimentação em muitos dos aspectos que possam desse processo se originar: geográfico, político, econômico, religioso, etc. Pela limitação de tempo desta exposição, é que partiremos de um breve olhar sobre a movimentação sócio-cultural no espaço geográfico do território paranaense e determinaremos, brevemente, também, o tempo para sua abordagem: do período pré-histórico ao período atual, sem os aprofundamentos das relações que ricamente sugerem. A fundamentação  de nossos estudos parte das pesquisas etnohistóricas realizadas por Noelli e Mota(1999a, 1999b),  Mota (2000), Chagas e Mota (s/d) da Universidade Estadual de Maringá.
Os estudos arqueológicos e antropológicos sobre a ocupação na região  sul do Brasil, nela se incluindo o atual estado do Paraná, apontam para a ocupação nesse espaço desde aproximadamente 11.000 a 12.000 anos AP.
Noelli e Mota descrevem que a ocupação mais antiga do noroeste do Paraná está relacionada ao povoamento original da América do Sul, quando todas as áreas do continente foram ocupadas pelas populações humanas pela primeira vez. Mas, advertem os pesquisadores,  fica ainda difícil precisar a qual etapa da ocupação original está relacionada a chegada dos primeiros humanos no território hoje paranaense.Além disso, fica difícil definir também qual a época e de quais regiões vieram essas primeiras populações para esse território.
As pesquisas permitem  afirmar que é possível  a ocupação ter-se dado com as populações pré-históricas, aquelas chegadas pouco antes dos europeus na conhecida Província Del Guairá.
Vamos iniciar falando, pois, das populações pré-históricas, sempre nos apoiando nas pesquisas de Noelli e Mota (1999a, 199b). Segundo esses historiadores, as populações presentes no atual Paraná desde 7000 anos atrás são conhecidas por “Pré-históricas”. Recebem, como as demais populações que ocuparam os territórios brasileiros desse período, o nome de “Tradição”. Foram assim identificadas:

  1. Tradição Humaitá: foram caçadores-coletores que ocuparam o sul do Brasil, Paraguai, Argentina entre 7000 e 2000 AP, com características de pequenos grupos e dieta vegetariana, ocupando sazonalmente as regiões. Deixaram vestígios em instrumentos de pedra, vasilhas de cerâmica. Não deixaram descendentes.
  2. Tradição Umbu: Deixaram vestígios de pontas de lanças, restos de lascamentos no sul do Brasil, Uruguai e São Paulo. Habitaram a região entre 12000 e 1000 anos atrás  e não deixaram descendentes.
  3. Tradição Sambaqui: foram pescadores-coletores do litoral sul do Brasil, desde o Rio Grande do Sul até a Bahia, de 6000 a 1000 dC. Deixaram restos de alimentos, enfeites, conchas, ferramentas, carvão, restos humanos, moradias, conhecidos como “sambaquis”.

         Os movimentos indígenas nesse tempo provavelmente deram-se por todo o território paranaense. Posteriormente, no que vem a se denominar “período histórico”, algumas regiões serão ocupadas por outros grupos.
Populações históricas:
Guarani são os mais conhecidos, desse período. vindos das bacias do rio Madeira e Guaporé, ocupando as bacias dos rios Paraguai e Paraná, até Buenos Aires. Avançaram até os atuais estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraguai e Uruguai. Estão há 2000 anos na primeira região. Pelo padrão de ocupação, suas aldeias ficavam em áreas de florestas. Trouxeram da Amazônia as casas, vasilhas cerâmicas, espécies vegetais. Contavam com até mais de  1000 pessoas em suas aldeias. A denominação Guarani se refere ao grupo e à língua falada.
 Xetá: Alguns remanecentes dessa população foram encontrados na década de 1840 por Joaquim Francisco Lopes e John H. Elliot aqui, na região da COMCAM e próximo a ela, na foz do Corumbataí, no Ivaí (onde hoje se situam os municípios de São Pedro do Ivaí, Fênix e São João do Ivaí). Em 1872, o engenheiro inglês Thomas Bigg-Whiter “capturou” um pequeno grupo, quando fazia reconhecimento da região em uma expedição. Ainda, entre 1955-56, há registro de contato, na Serra dos Dourados,com 18 deles. Restam hoje menos de 10 remanescentes em todo o Paraná. A denominação “Xetá” define o grupo e a língua falada.
Kaingang: São conhecidos como “Tradição Itararé” e “Casa de Pedra”. Pode-se afirmar que a origem dessa população é da região central do Brasil. Passaram a ocupar a região sul, no Paraná, provavelmente antes dos Guarani e foram empurrados por eles para o centro-sul e territórios interfluviais. As estatísticas apontam para 8000 indígenas no Paraná desse grupo.Ocupavam aldeias a céu aberto e casas subterrâneas. Suas aldeias se localizavam em áreas de florestas ou às margens de campos. Praticavam a exploração da agricultura e coleta de pinhão.Viveram em guerra contra os Guarani e os brancos, especialmente no século XIX. A denominação “Kaingang” define o grupo e a língua.
Xokleng- Como os Kaingang, devem ter chegado ao Paraná antes dos Guarani, tendo sido empurrados por eles para a Serra Geral no litoral Atlântico. São conhecidos como Tradição Itararé. Os Xokleng e os Kaingang tiveram contato com a tradição Humaitá. No litoral, a ocupação se dava em determinadas épocas. Suas aldeias eram pequenas, com poucos habitantes. Os pesquisadores Noelli e Mota afrima que eles devem ter sido empurrados para fora do Oeste paranaense pelos Guarani na época das primeiras expansões guarani, cerca de 2000 anos atrás. Localizavam-se nas florestas, habitavam em casas semi-subterrâneas e possuíam cerâmicas semelhantes às dos Kaingang. A denominação Xokleng se dá ao grupo e à língua falada.
Por esses dados, os estudiosos afirmam que os movimentos indígenas do período histórico ocorreram com três famílias linguísticas neste território hoje paranaense: Tupi-Guarani, Crên e Gês. Ao final da década de 1960, as pesquisas apontam para a denominação tupi-guarani e Gê-botocudo.
Mas a movimentação indígena no Paraná pode ser melhor compreendida, pela farta documentação existente, nos tempos coloniais, quando grande parte do território hoje paranaense comportou a Província Del Guairá e a República Teocrática Guairá, em decorrência da ocupação espanhola nessa região. Dessa forma, vamos abordar especificamente esta questão, com as limitações que o tempo desta sessão de estudos nos impõe.
Como se deu a criação da Província Del Guairá?
mapa peabiru.jpg
Fonte:AGUILAR, Juarandir C.O Guairá dos espanhóis.In:, Cadernos da Trilha, Paraná, abril de 2010., n.1.
A região conhecida como Guairá compreendeu o território que fica entre o rio Paranapanema até o rio Iguaçu, e do rio Paraná ao Tibagi, pretendendo prolongar-se até o litoral atlântico, pertencente à Província do rio da Prata até 1617. Guairá, portanto, caracterizou, no período da República dos Jesuítas, o território até os limites estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas. A “Província               Del Guairá”, abrangendo todo o território a leste do rio Paraná, em 1608, veio a ser criada como forma de conter o avanço dos portugueses. Paralelamente, foi criada a “República Teocrática Del Guairá”, de caracterização religiosa, que foi uma forma de jurisdicionar sobre as tribos desse local. Nela se estabeleceram as “povoações jesuíticas”, que chegaram a ter 1000000 índios nos seus 14 núcleos.
Assim, neste território denominado “Província Del Guairá” e “República Teocrática Del Guairá”, no século XVI, houve intensa movimentação indígena provocada pelos brancos europeus. Por parte dos espanhóis, foram criadas vilas e se desenvolveu o sistema de “encomiendas”, explorando o trabalho indígena, contra o quê se voltaram os missionários jesuítas. Então, ficavam as comunidades indígenas à mercê dos colonizadores espanhóis e dos evangelizadores jesuítas, mais humanos. Mas, não reagiram de forma passiva a essas investidas européias: fizeram alianças, acordos e guerras para garantirem sua liberdade. Havia, além disso, indígenas que se evadiam, se refugiavam nas matas, conhecidos como “índios brabos”, procurando evitar uma e outra dominação.
Quais são essas vilas e reduções jesuíticas?
São 03 vilas:              Ontiveros
                                  Ciudad Real Del Guayrá
                                  Ontiveros

 

São 13 as reduções de índios segundo Aguilar (2000) construídas entre 1610 e 1628:
-às margens do rio Paranapanema: N. Sra. do Loreto do Pirapó e Santo Inácio Mini;
-às margens do rio Tibagi e afluentes: São Francisco Xavier, N. Sra. Da Encarnação, São Miguel e São José;
-às margens do Ivaí e afluentes: Sete Arcanjos, São Paulo, Santo Antõnio, São Tomé e Jesus Maria;
-às margens do Piquiri: São Pedro e Nossa Senhora da Conceição.
Chagas e Mota  (s/d) falam de 14 reduções, contando, provavelmente com a “ermida” ou redução de Nossa Senhora de Copacabana, sediada na região do atual município de Ubiratã,  não constante no documento de A. Ruiz de Montoya do qual Aguilar referencia as reduções de índios acima citadas, ou seja, “Conqvista Espiritual, 45-45v”). 

O êxodo guairenho
Nunca fora pacífica a compreensão dos limites territoriais entre espanhóis e portugueses com base no Tratado de Tordesilhas (1494). De forma que, no Guairá, sempre havia invasões portuguesas. Desde 1607 registram-se investidas de bandeirantes na preia de índios. E a organização das reduções preocupou ainda mais a coroa portuguesa, que queria chegar até o rio da Prata. Por sua vez, os espanhóis queriam chegar até o litoral do Atlântico, em Cananéia.Assim, para impedir o avanço espanhol por meio das reduções, que já haviam chegado até o rio Tibagi, a partir de 1629 os portugueses, liderados pelo bandeirante Antonio Raposo Tavares, invadiram as reduções jesuíticas alcançando a região da foz do Corumbataí no Ivaí em 1632 no maior genocídio indígena em território paranaense. O episódio ficou conhecido por “êxodo guairenho”, pois expulsou definitivamente espanhóis, missionários e indígenas sob seus comandos.
Contam os historiadores que, dos 100000 índios aldeados, 15000 foram mortos, cerca de 60000 foram aprisionados e vendidos como escravos às plantações de cana-de-açúcar da Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro. Os restantes fugiram com os jesuítas para a Argentina e Paraguai, muitos fugiram para o interior. 12000 os jesuítas conseguiram salvar da escravidão, parte foi para o sul com os padres e fundaram os Sete Povos das Missões no Rio Grande do Sul.
O fato é que as  populações indígenas viveram momento ímpar de invasão em seus territórios pela ocupação européia,nestes séculos XVI e XVII,  provocando uma reviravolta radical em suas culturas, ainda hoje percebidas com intensidade. Após esse período do Guairá, quando o domínio português se estabeleceu no território, expulsando os espanhóis,  a movimentação indígena continuou acontecendo, no território hoje noroeste paranaense, especialmente retratada pelo historiador Mota (2000) no século XIX. Iniciam-se nesse período, também, as mudanças que a República provocou, tendo então a interferência dos colonizadores nacionais no território. Não foram menos ativas, porém, as reações indígenas nesse novo movimento colonizador, lutando Kaingang e Guarani pela posse desse território e ambos, principalmente os Kaingang, agora mais numerosos que aqueles, contra os brancos. Destacou-se, nesta região da COMCAM, o líder Kaingang Capitão Índio Bandeira que tinha sob sua liderança os caciques Mayor e Gregório das regiões do rio Corumbataí.

REFERÊNCIAS
AGUILAR, J. C. Província Guairá – Documentos políticos, administrativos e religiosos da monarquia hispânica no período filipino (1556-1665) . In: CASEMIRO (Org.). Compêndio sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM – Micro-região 12 do Paraná.Campo Mourão, Sisgraf, 2005.
BOND, Rosana. O Fascinante Caminho de Peabiru. In: Revista Cadernos da Trilha. Florianópolis-SC: abril de 2010.
CHAGAS, Nádia M. e MOTA, Lúcio T. O Guairá nos séculos XVI e XVII-As relações interculturais. MARINGÁ, s/d..
MOTA, Lúcio T. Os índios Kaingang e seus territórios nos campos do Brasil meridional na metade do século XIX. In  Uri e Wãxi- Estudos Interdisciplinares dos Kaingang.(MOTA< NOELLI, TOMASINO (Org), Londrina, UEL, 2000.
MOTA, L. T. e NOELLI, F. S.(a) Exploração e guerra de conquista dos territórios indígenas nos vales dos rios Tibagi, Ivaí, Piquiri. In: DIAS, R. B. e GONÇALVES, J.H. R. (org.). Maringá e o norte do Paraná. Estudos de história regional. Maringá:EDUEM, 1999.
NOELLI, F. S. e MOTA, L. T.(b) A pré-história da região onde se encontra Maringá,Paraná. In: DIAS, R. B. e GONÇALVES, J. H. R. (org.). Maringá e o norte do Paraná.Estudos de história regional.Maringá: EDUEM, 1999.